Todo ano o terror promete se reinventar e todo ano, goste-se ou não, ele cumpre uma função que nenhum outro gênero cumpre com tanta honestidade: nos devolve, disfarçado de entretenimento, aquilo que preferimos não olhar de frente. 2026 não foge à regra. Entre sequências de franquias que insistem em não morrer, adaptações de fenômenos nascidos no além-mundo digital e pequenas produções de orçamento ridículo que viraram fenômeno de bilheteria, o ano tem sido generoso com quem gosta de sustar a respiração — e também com quem gosta de encontrar, sob o verniz do sangue, o material bruto do inconsciente.
Fiz a curadoria abaixo levando em conta três coisas: a recepção da crítica (com notas do Rotten Tomatoes e do IMDb), o impacto cultural de cada obra e, claro, aquele critério mais subjetivo e mais nosso: o que cada filme tem a dizer sobre os medos que carregamos por baixo da roupa. A lista vai do décimo ao primeiro lugar — um pequeno ritual de contagem regressiva, como manda a tradição.
10. Sobrenatural: Agora Entre Nós

Sexto capítulo da franquia iniciada por James Wan em 2010, Insidious: Out of the Further — batizado no Brasil de Sobrenatural: Agora Entre Nós — segue Gemma (Amelia Eve), uma jovem mãe que descobre ser capaz não apenas de visitar o plano astral conhecido como “O Além”, mas de trazer de volta o que vive lá. Dirigido por Jacob Chase, o longa conta com o retorno de Lin Shaye como a médium Elise Rainier, figura que já é praticamente um arquétipo junguiano ambulante dentro da saga: a guia que atravessa os limiares entre consciente e inconsciente por ofício.
A crítica reconheceu boas sequências de suspense claustrofóbico, mas também apontou o cansaço estrutural de uma fórmula repetida seis vezes — o filme está em 57% no Tomatometer e 69% de aprovação do público no Rotten Tomatoes. Ainda assim, garante seu lugar na lista por reafirmar algo que a franquia entendeu desde o início: a casa mal-assombrada é sempre, também, uma metáfora da mente mal-assombrada.
9. Pânico 7
Poucas franquias de terror sobreviveram tanto tempo brincando abertamente com sua própria mitologia quanto Pânico. Sob direção de Kevin Williamson — roteirista do filme original de 1996 — Scream 7 traz Neve Campbell de volta como Sidney Prescott, agora reconstruindo a vida na cidade onde tenta proteger a filha de um novo Ghostface. Courteney Cox retorna como Gale Weathers, e o elenco reúne rostos antigos e novos em uma tentativa de reconciliar nostalgia com renovação.
A recepção foi o ponto mais controverso do ano: 31% no Tomatometer, a pior marca da série, contra 75% de aprovação do público — um contraste que por si só já revela algo sobre a diferença entre o olhar profissional, treinado para desconfiar da repetição, e o olhar afetivo, que reconhece no ritual do retorno um prazer próprio (dados no perfil da AdoroCinema e no Rotten Tomatoes). Ghostface, afinal, é também isso: o retorno do mesmo trauma com uma máscara ligeiramente diferente.
8. Undertone
Estreia na direção de Ian Tuason, Undertone aposta em um conceito simples e eficaz: quase todo o terror do filme é construído por áudio. A apresentadora de um podcast paranormal (Nina Kiri) começa a receber gravações anônimas que parecem revelar uma possessão em andamento — e o filme, que nasceu quase como uma peça radiofônica, transforma silêncio e ruído em ferramentas de tensão psicológica mais eficazes que qualquer jump scare.
Com 74% no Tomatometer (Rotten Tomatoes), Undertone é um lembrete de que o terror mais perturbador é frequentemente aquele que não mostra nada — que deixa a imaginação, esse órgão insaciável, preencher o vazio com o pior que ela é capaz de produzir.
7. Casamento Sangrento: A Viúva
Sequência do sucesso de 2019, Ready or Not 2: Here I Come (no Brasil, Casamento Sangrento: A Viúva) traz de volta Samara Weaving como Grace, agora obrigada a enfrentar uma nova rodada do jogo mortal que a transformou em final girl definitiva da década. Kathryn Newton entra como a irmã Faith, e o elenco ainda soma nomes como Sarah Michelle Gellar e o inusitado David Cronenberg diante das câmeras.
Dirigido novamente pela dupla Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, o filme manteve o tom de comédia sombria e crítica social à elite endinheirada que fez sucesso no original, com 74% no Tomatometer e 90% de aprovação do público (Rotten Tomatoes). Poucas franquias recentes souberam usar o horror-comédia para falar tão diretamente sobre como a riqueza se perpetua através de rituais de sacrifício — ainda que envoltos em sangue de mentira e humor ácido.
6. O Primata
Dirigido por Johannes Roberts, Primate parte de uma premissa que o próprio cineasta resumiu como “Cujo com um chimpanzé”: uma viagem em família ao Havaí se transforma em pesadelo quando o chimpanzé de estimação contrai raiva e se torna uma ameaça mortal. Sem grandes pretensões metafísicas, o filme aposta na eficiência do gênero “animal em fúria”, linhagem que remonta a clássicos como Tubarão e Cujo.
Com cerca de 77% no Tomatometer e nota 6,9 no IMDb, O Primata foi celebrado como o primeiro grande sucesso de terror do ano — um retorno bem-vindo ao terror de criatura direto ao ponto, sem forçar leituras que o filme não pretende sustentar. Às vezes o medo mais puro é simplesmente reconhecer que a natureza, mesmo domesticada, nunca deixou de ser selvagem.
5. Hokum – O Pesadelo da Bruxa
Do diretor Damian McCarthy (o mesmo de Oddity), Hokum acompanha o escritor Ohm Bauman (Adam Scott) em uma viagem à Irlanda rural para espalhar as cinzas dos pais — viagem que se transforma em confrontação com o folclore local e, sobretudo, com o próprio passado. É terror folk no seu sentido mais clássico: paisagem, tradição oral e luto como matéria-prima de assombração.
A crítica foi generosa: 90% no Tomatometer e 82% de aprovação do público (Rotten Tomatoes). Hokum entende algo que o terror folk sempre soube, desde muito antes de virar subgênero com nome: o luto não resolvido não desaparece, ele migra — de pessoa para lugar, de lugar para lenda, de lenda para pesadelo.
4. Backrooms: Um Não-Lugar
Talvez o experimento mais interessante do ano do ponto de vista cultural: Backrooms, dirigido por Kane Parsons (autor original do fenômeno viral que deu nome ao filme), transporta para o cinema o conceito de “liminal space” nascido no imaginário coletivo da internet. Chiwetel Ejiofor lidera o elenco como um homem preso em uma rede infinita de salas vazias, corredores idênticos e luzes fluorescentes zumbindo — um purgatório sem mitologia religiosa, puramente espacial.
Com 87% no Tomatometer e uma média de avaliação em torno de 6,9 no IMDb (ficha da Apple TV), Backrooms mostra como o horror contemporâneo aprendeu a extrair angústia genuína de um território sem monstro definido — porque o não-lugar, o espaço que não deveria existir, é em si a ameaça. Não é acaso que o conceito tenha nascido e se espalhado justamente numa era de trabalho remoto, isolamento e ambientes digitais que imitam o real sem nunca serem habitáveis.
3. Socorro!
Sam Raimi, o homem que deu ao terror moderno boa parte do seu vocabulário visual em Uma Noite Alucinante, volta ao gênero com Send Help — no Brasil, Socorro! —, um thriller de sobrevivência com humor sombrio estrelado por Rachel McAdams e Dylan O’Brien como colegas de trabalho que se tornam os únicos sobreviventes de uma queda de avião em uma ilha isolada. O que começa como disputa profissional vira, aos poucos, batalha de vontades com contornos cada vez mais sinistros.
O resultado é o filme mais bem avaliado da lista até aqui: 93% no Tomatometer, com selo de Certified Fresh (Rotten Tomatoes). Raimi sabe, como poucos, transformar situações absurdas em ritual de purificação através da violência cômica — e Socorro! usa o confinamento em ilha para expor o que sobra de uma pessoa quando os códigos sociais do escritório deixam de ter qualquer serventia.
2. Extermínio: O Templo dos Ossos
Dirigido por Nia DaCosta a partir de roteiro de Alex Garland, 28 Years Later: The Bone Temple — Extermínio: O Templo dos Ossos — dá continuidade à jornada de Spike (Alfie Williams), agora inserido na gangue de Jimmy Crystal (Jack O’Connell), enquanto o Dr. Kelson (Ralph Fiennes) faz uma descoberta capaz de reconfigurar o equilíbrio entre infectados e sobreviventes. Mais do que zumbis, o filme está interessado em uma pergunta mais incômoda: o que resta de humano numa comunidade que se organiza inteiramente em torno do medo?
Com 92% no Tomatometer, 88% de aprovação do público e nota 7,2 nas bases agregadoras (Rotten Tomatoes), é hoje o capítulo mais bem avaliado de toda a franquia iniciada por Danny Boyle em 2002 — prova de que o apocalipse zumbi ainda tem fôlego quando usado como lente para examinar, sem didatismo, a inumanidade que sobrevive à própria infecção.
1. Obsessão
No topo da lista, uma surpresa que já entrou para a mitologia recente do terror independente. Obsession — Obsessão — é o primeiro longa de Curry Barker, feito com orçamento minúsculo (algo entre 750 mil e 1 milhão de dólares) e que se transformou em um dos maiores fenômenos de bilheteria do ano, arrecadando dezenas de vezes o valor investido. A história acompanha Bear (Michael Johnston), rapaz tímido que usa um amuleto para fazer sua paixão de infância, Nikki (Inde Navarrette), se apaixonar por ele — e observa, em tempo real, o desejo satisfeito por atalho mágico se converter em posse, no sentido mais literal e mais psicanalítico da palavra.
Com notas na casa dos 95% tanto de crítica quanto de público no Rotten Tomatoes, Obsessão encerra a lista como o retrato mais afiado do ano sobre um tema antigo disfarçado de premissa nova: o que fazemos quando o amor que sonhamos deixa de precisar de reciprocidade. A atuação de Inde Navarrette, que evolui de timidez a autômato de desejo alheio, é o tipo de trabalho que faz o espectador sair da sala perguntando quem, entre os dois personagens, é de fato o monstro.

O que este ano nos diz sobre o medo
Colocados lado a lado, os dez filmes desta lista desenham um mapa nada aleatório: casas mal-assombradas que são, na verdade, psiques mal-assombradas; espaços sem lugar que espelham nosso isolamento digital; chimpanzés e vírus que devolvem ao corpo o que a civilização insiste em recalcar; e desejos concedidos demais rápido demais, que se revelam maldição. O terror de 2026 continua fazendo o que o gênero sempre fez de melhor: contar, com a licença poética do susto, aquilo que a vida cotidiana não nos deixa dizer em voz alta.
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