O Evangelho Segundo Tolkien: 25 Anos de uma Jornada Imortal

Se você esteve vivo e consciente nos últimos 25 anos, é impossível não ter sido atropelado pelo fenômeno O Senhor dos Anéis. Recentemente, no podcast Taverna dos Brutos, sentei com o Brunão para relembrar como essa obra mudou tudo. E não estou falando apenas de cinema ou de 17 estatuetas do Oscar (embora o “choro” de Harry Potter e Star Wars diante desse rolo compressor seja sempre um meme maravilhoso). Estou falando de como o “velho” J.R.R. Tolkien criou, literalmente, um novo Gênesis.

A Era do Torrent e o “Shopping Cabum”

A gente estava ali, por volta de 2001. Eu era estagiário, o mundo pré-redes sociais fervilhava com a notícia de um filme impossível. Lembro que a febre começou com recortes de jornal passando de mesa em mesa no escritório. Antes do Pirate Bay, existia a “magia” do Milel: baixar o filme em 10 arquivos corrompidos via Emule para assistir numa máquina que quase derretia tentando rodar um vídeo digital.

Naquela época, nosso refúgio era o “Sai de Baixo” (o shopping de Osasco que, para os íntimos, virou “Shopping Cabum” depois que o teto desabou). Ali, entre caricaturas e livrarias, a gente começou a descobrir que O Senhor dos Anéis era apenas a ponta do iceberg. Atrás do Frodo, havia um universo de línguas inventadas, mitos nórdicos e uma profundidade que nenhuma trilogia de Hollywood jamais alcançou.

O Gênesis Poético: A Música de Ilúvatar

Sempre digo uma coisa: se você quer entender o conceito de “Criação” da forma mais poética possível, esqueça os manuais e leia o Silmarillion. No universo de Tolkien, o mundo não surge de um estalar de dedos, mas de uma canção.

Eru Ilúvatar, o Deus supremo, imaginou uma música. Dessa melodia surgiram os primeiros espíritos (os Valar). Mas, como em toda boa composição, surgiu uma nota dissonante: Melkor. Ele queria brilhar sozinho, queria bagunçar a sinfonia. Essa “bagunça” na música divina é a origem de todo o mal na Terra Média.

Tolkien era um linguista brilhante e um católico fervoroso, mas ele não pregava. Ele transformava a teologia em mito. Quando você vê o Gandalf e a Galadriel partindo para o Oeste no final do Retorno do Rei, eles não estão apenas pegando um barco; eles estão voltando para o “seio da canção”, para a terra dos imortais (Valinor), onde o tempo não corrói a alma.

Hobbits: Os Ingleses de Pés Peludos

O Brunão matou a pau no podcast: o Hobbit é o espelho do próprio Tolkien. O autor se descrevia como um ser de hábitos pacatos, que amava seu cachimbo, seu chá e sua vidinha tranquila. O Condado é, em essência, a Inglaterra rural que Tolkien viu desaparecer com a Revolução Industrial (que ele metaforizou através das máquinas e da fumaça de Isengard e Mordor).

A genialidade está em colocar o destino do mundo nas mãos de quem só queria um segundo café da manhã. Enquanto reis como Aragorn (descendente dos numenorianos, aqueles “super-homens” que viviam centenas de anos como os patriarcas bíblicos) lutavam com espadas, eram os pequenos pés peludos que carregavam o fardo moral da existência.

Por que Tolkien ainda vence?

Star Wars é gigante? É. Harry Potter é divertido? Com certeza. Mas Tolkien levou 12 anos para escrever a trilogia. Ele lutou na Primeira Guerra Mundial e destilou o pavor das trincheiras nos Uruk-hai e no desespero do Abismo de Helm. Ele não inventou apenas uma história; ele inventou uma historiografia.

Ele criou genealogias, calendários e idiomas que funcionam de verdade. Quando você ouve a Arwen (a Liv Tyler, que convenhamos, nasceu para aquele papel) falando élfico, aquilo não é “balbuceio de roteirista”. É uma língua com gramática e runas baseadas no nórdico antigo e no finlandês.

O Legado nos Anéis de Poder

Hoje, vemos a Amazon tentando expandir esse universo com Os Anéis de Poder. Há polêmicas, licenças poéticas e invenções, mas a espinha dorsal continua lá: a luta contra a corrupção do poder. O anel não é apenas um objeto; é a tentação de dominar a vontade alheia. E, como Tolkien nos ensinou, até o menor dos seres pode mudar o curso do futuro.

Seja no livro de 1954 ou no cinema de 2001, a Terra Média continua sendo o lugar para onde fugimos quando o nosso mundo parece estar virando Mordor.


E você? Qual foi a sua primeira “viagem” para a Terra Média? Deixa aí nos comentários se você também é do time que acha que 17 Oscars ainda foi pouco!

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Sou um curioso incurável. Caminho entre a filosofia, a mística, a música e a vida comum, tentando entender o que existe por trás das palavras, dos símbolos e das canções. No Boteco do Seixas, escrevo para quem desconfia das verdades prontas, gosta de boas perguntas e acredita que pensar também pode ser um ato de liberdade. Aqui não ensino caminhos, compartilho inquietações.

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O Autor - Everton Alves

Sou um curioso incurável. Caminho entre a filosofia, a mística, a música e a vida comum, tentando entender o que existe por trás das palavras, dos símbolos e das canções. No Boteco do Seixas, escrevo para quem desconfia das verdades prontas, gosta de boas perguntas e acredita que pensar também pode ser um ato de liberdade. Aqui não ensino caminhos, compartilho inquietações.

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