Domingo à noite, corredor de laticínios do mercado. Eu de camiseta preta do System of Down, bermuda do Jack Daniels, comprando pão e refrigerante. Ao redor, um mar de camisas sociais, saias na altura dos joelhos e vestidos longos, sapatos engraxados. Até os adolescentes pareciam vestidos para uma reunião corporativa.
Levantei os olhos e encontrei o primeiro olhar. Uma senhora de blusa florida me observava como quem avalia uma fruta estragada na prateleira. Quando nossos olhos se cruzaram, ela desviou rápido, ajeitou a bolsa no ombro, coçou o braço sem motivo. O segundo, um senhor de terno azul e gravata vermelha, quando notou que eu percebi seus olhares, desviou tanto do balcão de frios que quase foi para no corredor de café.
Mais à frente, um grupo de jovens. Todos com a mesma postura, o mesmo corte de cabelo, as mesmas cores apagadas nas roupas. Me olhavam de canto de olho, como se eu fosse um ET que acabou de pousar na seção de frios. Ou pior: como se eles fossem os Homens de Preto investigando minha presença ali.
O curioso é que não era hostilidade. Era outra coisa.
Alguns olhares vinham carregados de pena, aquele tipo de compaixão que diz “coitado, ele precisa de salvação”. Outros pareciam… curiosos? Quase invejosos? Como se minha camiseta de banda e meu chinelo representassem uma liberdade que eles haviam trocado por aquelas roupas quentes e desconfortáveis num domingo de calor.
Mas o que mais me chamou atenção foi perceber que, naquele campo de amostragem humana, caminhando entre corredores de produtos em promoção, eu não consegui identificar um único olhar de paz.
Alguns pareciam drogados de cansaço, olhos vidrados como quem acabou de sair de uma palestra longa demais. Outros nervosos, inquietos, checando o celular a cada dez segundos. Mexiam nas gôndolas sem ver o que tocavam.
Paguei minhas compras, saí para o estacionamento. A sensação era estranha: eu era o diferente ali, o ponto fora da curva. Mas também era, talvez, o único que não estava tentando se parecer com ninguém.


