A História Sombria do Primeiro Arranha-Céu Brasileiro
Se você passa pelo centro de São Paulo e olha pros prédios antigos, provavelmente já reparou num edifício rosado, meio imponente, que parece saído de outra época. Esse é o Edifício Martinelli, localizado entre a Rua São Bento, Avenida São João e Rua Líbero Badaró.
Hoje, ele é sede de repartições municipais e ponto turístico. Mas se você perguntar pros funcionários que trabalham lá, ou pros seguranças que fazem ronda de madrugada, vai ouvir histórias bem diferentes. Histórias de elevadores que andam sozinhos. De portas que batem sem vento. De uma loira fantasma que aparece nos corredores. E de crimes brutais que nunca foram resolvidos.
Bem-vindo ao prédio mais assombrado de São Paulo.
Giuseppe Martinelli: O Sonho de Tocar o Céu

Giuseppe Martinelli nasceu em 1870, em São Donato de Luca, Itália, numa família de pedreiros e empreiteiros. Em 1889, aos 19 anos, desembarcou no Brasil com o irmão, como tantos outros imigrantes italianos da época.
Começou como açougueiro. Depois foi trabalhar na empresa de exportação Fratelli Fiaccadori. Em 1911, rompeu com o irmão e criou a “Sociedade Anônima Martinelli”, que prosperou rapidamente.
O grande salto veio em 1915, durante a Primeira Guerra Mundial, quando formou uma frota própria de navios para suprir a falta de transportes. Em 1922, a frota chegava a 22 unidades. Martinelli era, oficialmente, um dos homens mais ricos de São Paulo.
Mas ele queria mais. Queria deixar uma marca permanente na cidade. Queria causar impacto.
Decidiu construir o prédio mais alto da América Latina.
A Construção: Uma Disputa de Egos
As obras começaram em 1924, com projeto inicial de 12 andares. Mas Giuseppe Martinelli estava numa disputa ferrenha com os arquitetos do Edifício A Noite, no Rio de Janeiro, que tinha 24 andares.
Foi uma corrida. De 12 andares, o projeto foi pra 14, depois 18, depois 25. Giuseppe não parava de adicionar pavimentos. Em 1929, o edifício foi inaugurado inacabado, com apenas 12 andares prontos. As obras continuaram até 1934, terminando com 30 andares e 105 metros de altura.
Durante um tempo, foi o prédio mais alto da América Latina, até ser superado pelo Edifício Kavanagh, em Buenos Aires, em 1935.
Mas a construção gerou polêmica. Até então, São Paulo não tinha nenhum prédio com mais de 5 andares. A população achava que aquilo ia desabar. Os boatos se intensificaram quando a fundação começou a minar água, problema que foi resolvido com muita dificuldade.
A Prefeitura chegou a paralisar a obra. Giuseppe teve que reunir documentos provando que o projeto era seguro.

E sabe o que ele fez pra provar? Construiu uma mansão no topo do prédio e se mudou pra lá com a família inteira. Tipo: “Se vai cair, eu caio junto”.
Os Anos Dourados: Luxo, Cinema e Alta Sociedade
Nos primeiros anos, o Edifício Martinelli foi o lugar em São Paulo. Abrigava:
- Hotel São Bento (luxuoso)
- Salão Verde e Salão Mourisco (eventos da elite paulistana)
- Cine Rosário (o cinema mais chique da cidade)
- Escola de dança do professor Arturo Patrizi (a mais concorrida)
- Confeitarias, restaurantes, clubes
- Sedes de partidos políticos (PRP, PCB, UDN)
- Clubes esportivos (Palmeiras, Portuguesa)
Giuseppe até alugava as empenas cegas do prédio como outdoors gigantes, para produtos como “pasta dental Elba” e aguardente Fernet Branca.
Em 1931, Guglielmo Marconi (inventor do rádio) visitou São Paulo e foi levado ao topo do Martinelli. Em 1933, o Zeppelin sobrevoou a cidade e deu uma volta em torno do prédio.
Era o símbolo de São Paulo.
A Queda: Crise, Guerra e Abandono
Mas tudo desmoronou rapidamente.
A crise de 1929 (quebra da Bolsa de Nova York) destruiu a fortuna de Giuseppe. Em 1933, ele foi forçado a vender o edifício para o governo da Itália.
Em 1943, com a Segunda Guerra Mundial, o Brasil declarou guerra aos países do Eixo (incluindo a Itália). Todos os bens italianos foram confiscados. O Martinelli virou propriedade da União e foi rebatizado como “Edifício América”.
Em 1944, foi leiloado e dividido entre 103 proprietários diferentes.
E aí começou o pesadelo.
A Era das Trevas: Cortiço, Prostituição e Morte
Entre as décadas de 1950 e 1970, o Edifício Martinelli virou um cortiço gigante. Famílias de baixa renda ocuparam irregularmente os andares. Prostíbulos se instalaram. Clínicas clandestinas de aborto funcionavam escondidas. O tráfico de drogas tomou conta.
Lixo se acumulava nos poços de ventilação. A criminalidade explodiu.

E foi nessa época que os crimes aconteceram. Crimes brutais. Crimes que nunca foram resolvidos.
O Assassinato de Davilson Gelisek (1947)
Davilson Gelisek tinha 14 anos. Era alfaiate na Rua Senador Feijó. Desapareceu após fazer uma entrega no Martinelli.
Quatro dias depois, encontraram o corpo dele no fosso do elevador. Ele tinha sido estrangulado, violentado sexualmente e jogado do alto do prédio.
O assassino, conhecido como “Meia-Noite”, foi preso e confessou. Mas a brutalidade do crime marcou pra sempre a história do edifício.
O Caso de Márcia Tereza (Década de 60)
Márcia Tereza foi estuprada por horas por cinco homens dentro do Martinelli. Depois, a mataram.
O caso nunca foi resolvido.
A Morte de Neide (1965)
Neide tinha 17 anos. Estava num baile. Foi vista pela última vez acompanhada de um homem desconhecido.
Horas depois, encontraram o corpo dela na calçada. Tinha sido esganada e atirada do prédio. Fraturas expostas, estado deplorável.
O caso também foi arquivado por falta de provas.
Rosa e os Sapatos no 17º Andar (1972)
Rosa era uma jovem que, segundo relatos, se prostituía. Foi vista pela última vez entrando no Martinelli com um homem muito mais velho.
Um segurança viu ela sendo jogada do segundo andar. Encontraram os sapatos dela no 17º andar.
Ninguém sabe o que aconteceu entre o 17º e o 2º andar.
A Restauração: Ossos, Lixo e Segredos
Em 1975, o prefeito Olavo Setúbal desapropriou o edifício e iniciou uma restauração massiva.
Quando começaram as obras, encontraram:
- Ossos humanos (incluindo restos de crianças nas tubulações)
- Lixo acumulado até o 7º andar nos poços dos elevadores
- Fiações clandestinas por todo o prédio
- Habitações precárias em condições subumanas
O edifício foi reinaugurado em 1979. Hoje abriga Secretarias Municipais, empresas públicas (EMURB, COHAB-SP), o Sindicato dos Bancários, e lojas no térreo.
Mas as histórias não pararam.
As Lendas Urbanas: O Martinelli Assombrado
Funcionários, seguranças, ascensoristas e visitantes relatam fenômenos inexplicáveis no Edifício Martinelli até hoje:
1. Os Elevadores Que Andam Sozinhos
Os elevadores do Martinelli são antigos e só funcionam com ativação interna de um ascensorista. Você precisa fechar duas portas manualmente pra ele subir.
Mas em várias ocasiões, de madrugada, os elevadores começaram a andar sozinhos. Portas se abrindo e fechando. Subindo e descendo andares.
Sem ninguém dentro.
2. O Zelador e a Voz Fantasma
Um zelador pegou o elevador até o 14º andar pra apagar as luzes.
Quando foi desligar, uma voz disse: “Olha, eu estou trabalhando. Deixa a luz acesa.”
Ele foi ver quem estava trabalhando.
Não tinha ninguém.
3. A Loira Fantasma nos Corredores
Seguranças e funcionários relatam ter visto uma mulher loira perambulando pelos corredores, especialmente nos andares mais altos.
Quando tentam se aproximar, ela desaparece.
Alguns acreditam que seja o espírito de Rosa. Outros, de Neide.
4. O Fantasma de Rosa no 20º Andar
Há relatos específicos de uma presença feminina a partir do 20º andar.
Testemunhas dizem sentir uma presença, ouvir passos, ver sombras.
Thiago de Souza, do projeto “O Que Te Assombra?”, explica: “Esse espectro seria de uma garota chamada Rosa. Fato é que um segurança viu ela sendo jogada do segundo andar.”
5. Portas Que Batem e Luzes Que Piscam
Oscilações na energia elétrica sem explicação. Portas que batem mesmo sem vento. Aparelhos que ligam e desligam sozinhos.
Fenômenos poltergeist, segundo os especialistas.
Por Que o Martinelli é Considerado Assombrado?
Tem duas explicações, dependendo se você acredita em fantasmas ou não.
Explicação Sobrenatural
Quem acredita em fenômenos paranormais diz que os espíritos ficam presos aos locais de martírio físico.
As vítimas dos assassinatos — Davilson, Márcia, Neide, Rosa — nunca conseguiram justiça. Os crimes nunca foram resolvidos. Então as almas permanecem, tentando chamar atenção, apontar os assassinos, desfazer injustiças.
Ou, simplesmente, estão presas por apego mundano.
Explicação Psicológica
Quem não acredita em fantasmas tem outra visão: o fenômeno sobrenatural é uma forma de processar traumas.
“É um jeito de demonstrar que aquela memória e ferida continua aberta”, explica Thiago de Souza. “Muitas vezes ligada a esse tipo de trauma: assassinato, escravidão, violência contra mulher, contra criança.”
O “fantasma” seria, na verdade, o reflexo psíquico do trauma coletivo.
A Questão do Vale do Anhangabaú
Tem ainda um terceiro fator: a localização.
O Martinelli fica no Vale do Anhangabaú, região que os tupis-guaranis chamavam de “Vale do Rio do Diabo” ou “Rio do Anhangabaú”.
Os jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega associaram uma entidade indígena chamada “Anhangá” ao diabo cristão. Desde então, a região carrega essa aura sombria.
Coincidência? Talvez. Mas é curioso que vários prédios ao redor do vale (Martinelli, Joelma, Theatro Municipal) tenham histórias de assombrações.
O Martinelli Hoje: Entre o Turismo e o Mistério
Atualmente, o Edifício Martinelli tem mais de 3.000 funcionários e fluxo diário de 5.000 pessoas. Abriga secretarias municipais, repartições públicas, o Sindicato dos Bancários e lojas.
Desde 2023, parte do terraço foi concedida ao Grupo Tokyo por 15 anos, com investimento de R$ 71 milhões. O plano é transformar o local em observatório, café, restaurante, loja de suvenires e museu.
Em 2024, o Martinelli comemorou 100 anos com o projeto M100: 100 dias dedicados à arte, cultura e visitas guiadas gratuitas.
E o prédio virou point da noite paulistana. O terraço, a 100 metros de altura, recebe festas, eventos com temáticas latinas, baladas eletrônicas, rodas de samba e exposições de arte.
Mas se você perguntar pros funcionários que ficam depois do expediente, pros seguranças que fazem ronda de madrugada, pros ascensoristas que operam os elevadores antigos…
Eles vão te dizer que o Martinelli ainda guarda seus segredos. E que, talvez, algumas almas nunca saíram de lá.
Como Visitar o Edifício Martinelli
Endereço: Avenida São João, 35 – Centro (São Paulo/SP)
O edifício oferece visitas monitoradas gratuitas. Para grupos acima de 15 pessoas, é necessário agendamento prévio.
Telefone: (11) 3116-2777
Conclusão: Lenda ou Realidade?
No final das contas, o Edifício Martinelli é assombrado?
Depende. Depende se você acredita em fantasmas. Depende se você acha que traumas deixam marcas energéticas nos lugares. Depende se você confia nos relatos de dezenas de testemunhas ao longo de décadas.
O que não dá pra negar é que o Martinelli tem uma história sombria. Crimes brutais aconteceram lá. Vidas foram destruídas. Injustiças nunca foram corrigidas.
E talvez, só talvez, alguns espíritos ainda estejam esperando por justiça.
Da próxima vez que você passar pelo centro de São Paulo e olhar pra aquele prédio rosado, imponente, cheio de história… lembre-se: por trás das janelas antigas, dos corredores vazios, dos elevadores que rangem…
Pode ter alguém olhando de volta.
Fontes e Links:
- Edifício Martinelli – Wikipedia
- História do Prédio Martinelli
- A História de Martinelli – Prefeitura de SP
- Martinelli: 92 Anos – Prefeitura de SP
- Edifício Martinelli Assombrado – CNN Brasil
- Assombrações do Martinelli – Sindiconet
- 100 Anos do Martinelli – Gazeta SP
- Crimes e Assombrações – Aventuras na História
- Espaços Mal-Assombrados – Sesc SP
E você? Já visitou o Edifício Martinelli? Já sentiu algo estranho lá? Ou conhece alguém que trabalha lá e tem histórias pra contar? Me conta nos comentários!


