True Crime: Quando a Pulsão de Morte Vira Entretenimento

Uma Análise Psicanalítica do Nosso Fascínio pelo Macabro

Você já parou pra pensar por que passamos horas assistindo a histórias sobre serial killers, assassinatos brutais e investigações policiais? Por que diabos Making a Murderer, Dahmer e podcasts como Modus Operandi nos prendem tanto? E mais importante: o que isso diz sobre nós?

Bom-vindo ao fenômeno True Crime — o gênero que explodiu nos últimos anos e que, se formos honestos, diz muito mais sobre quem assiste do que sobre os crimes em si.

O Boom do True Crime: Números Que Assustam (Quase Tanto Quanto as Histórias)

As buscas mundiais pelo termo “true crime” triplicaram entre fevereiro de 2017 e fevereiro de 2022. No Brasil, o pico de popularidade do gênero aconteceu em outubro de 2021. E não para de crescer.

Cerca de 42% da população dos EUA com mais de 13 anos são ouvintes de podcasts de true crime, o que representa aproximadamente 119 milhões de pessoas. Aqui no Brasil, entre o primeiro semestre de 2021 e o mesmo período de 2022, houve um aumento de 52% no consumo de programas em áudio do gênero.

Netflix, HBO Max, Prime Video — todos investem pesado. Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez se tornou a produção original mais assistida da HBO Max no Brasil um mês após o lançamento. Tremembé virou sucesso instantâneo. A Mulher da Casa Abandonada bateu 7 milhões de downloads.

Mas aqui está a pergunta que não quer calar: por quê?

Freud Entra no Chat: Pulsão de Morte e o Fascínio pelo Horror

Vamos direto ao ponto: Sigmund Freud, lá em 1920, escreveu Além do Princípio do Prazer, onde apresentou um dos conceitos mais polêmicos (e fascinantes) da psicanálise: a pulsão de morte (Todestrieb, ou Thanatos).

Basicamente, Freud propôs que existe em nós, junto com Eros (a pulsão de vida, que nos move em direção à sobrevivência, ao prazer, ao sexo, à criação), uma força oposta e igualmente poderosa: uma tendência à autodestruição, à redução de tensões, ao retorno ao estado inorgânico. Em outras palavras, uma atração pela morte.

Parece pesado? É. Mas espera que fica mais interessante.

Freud observou que essa pulsão se manifesta em fenômenos como a compulsão à repetição — aquela tendência bizarra que temos de repetir experiências traumáticas, de voltar sempre aos mesmos padrões destrutivos, mesmo sabendo que vão nos machucar. Ele sugeriu que existe algo no psiquismo humano que não busca apenas prazer, mas que flerta com a destruição, com o limite, com a morte.

E é aí que True Crime entra.

Quando assistimos a uma série sobre Ted Bundy, ou ouvimos um podcast detalhando um assassinato brutal, não estamos simplesmente satisfazendo curiosidade. Estamos nos aproximando simbolicamente daquilo que mais tememos: a violência, a morte, o caos, a ruptura da ordem social. Estamos dando vazão, de forma controlada e segura, à nossa pulsão de morte.

É como se o True Crime fosse uma espécie de válvula de escape psíquica. Ele nos permite flertar com o horror sem nos colocarmos em risco real. É a morte domesticada, empacotada em episódios de 45 minutos com trilha sonora tensa.

Lacan e o Gozo: Por Que Não Conseguimos Parar de Assistir

Se Freud plantou a semente, Jacques Lacan regou ela com esteroides.

Jacques Lacan

Lacan pegou o conceito de pulsão de morte e o reformulou através da ideia de gozo (jouissance). E não, gozo aqui não é sinônimo de prazer — na verdade, é quase o oposto.

Lacan considerava o gozo tanto um excesso insuportável de prazer quanto uma manifestação no corpo que traz sofrimento. É aquela experiência paradoxal de sentir algo ao mesmo tempo doloroso e compulsivo, algo que você sabe que te machuca mas não consegue parar.

Pensa em quem assiste 10 episódios seguidos de Mindhunter às 3 da manhã, sabendo que vai ter pesadelos depois. Ou quem ouve podcasts sobre serial killers no metrô e chega em casa tenso, com medo de sombras. Por que fazemos isso?

Porque o gozo não obedece à lógica do prazer. Ele obedece a uma lógica própria, autística, compulsiva. O gozo contém uma agressividade inconsciente, uma violência que busca alcançar sua própria satisfação.

True Crime nos oferece acesso a esse gozo mortífero de forma socialmente aceitável. Você não está cometendo crimes, você está “se informando”. Não está sendo mórbido, está “tentando entender a mente humana”. Mas no fundo, o que te prende ali é o gozo: aquele misto de horror, fascínio, repulsa e atração pela transgressão.

A Dimensão da Transgressão: Vendo o Impensável

Outro ponto crucial: True Crime nos permite testemunhar a transgressão absoluta.

Na nossa vida cotidiana, somos regidos por leis, normas, tabus. Não matamos, não torturamos, não violamos. O simbólico — a ordem da linguagem, da lei, da cultura — nos mantém dentro dos trilhos. Mas existe sempre, no inconsciente, a fantasia do que aconteceria se essas leis fossem quebradas.

O criminoso, especialmente o serial killer, representa a figura mítica que transgrediu completamente. Ele cruzou a linha que separa o civilizado do bárbaro. E ao assistir suas histórias, nós experimentamos vicariamente essa transgressão sem precisar pagar o preço.

É fascinante e perturbador ao mesmo tempo. Como disse Lacan, a transgressão da lei e o encontro com “a Coisa” (das Ding) implicaria extinguir o que estrutura mais profundamente o inconsciente. O criminoso fez isso. Nós, voyeurs seguros no sofá, apenas observamos.

Por Que Mulheres São o Maior Público?

Aqui tem um dado curioso: 26% das mulheres americanas consomem podcasts de True Crime, mais que o dobro dos homens (12%). No Brasil, pelo menos 75% da audiência do podcast Modus Operandi é feminina.

Por quê?

A explicação mais comum é que mulheres buscam técnicas de autodefesa e proteção. Um estudo da Universidade de Illinois mostrou que mulheres têm mais interesse por produções de true crime, principalmente quando vítimas são do sexo feminino, e que esse interesse está ligado a uma busca por técnicas de defesa.

Faz sentido. Num país onde o feminicídio bate recordes, onde mulheres são socializadas desde cedo a terem medo de andar sozinhas à noite, True Crime funciona como uma espécie de manual de sobrevivência disfarçado de entretenimento.

Mas tem uma camada psicanalítica mais profunda aqui: mulheres, historicamente posicionadas como objetos de violência e desejo masculino, encontram no True Crime uma forma de ressignificar o trauma coletivo. Ao estudar os padrões, ao entender a mente dos agressores, há uma tentativa inconsciente de dominar aquilo que as ameaça.

É uma forma de transformar passividade em agência. “Se eu entender como serial killers escolhem suas vítimas, talvez eu consiga evitar ser uma.”

O Lado Sombrio: Espetacularização e Gozo Mórbido

Nem tudo são flores (ou cadáveres bem documentados).

True Crime também tem um lado profundamente problemático: a espetacularização da dor alheia.

Pesquisadores apontam que o foco em entretenimento pode gerar pouco compromisso com a veracidade ou precisão das informações. Muitas produções sacrificam ética jornalística em nome do impacto emocional. Vítimas são reduzidas a plot points. Famílias enlutadas viram personagens coadjuvantes na narrativa do “monstro fascinante”.

E tem mais: crescem perfis que usam inteligência artificial para criar deepfakes, fazendo com que vítimas contem falsamente seus próprios casos. Isso vai além do entretenimento — é revitimização pura.

Aqui voltamos à psicanálise: quando o gozo se desconecta completamente da ética, quando se torna apenas consumo compulsivo sem reflexão, entramos em território perigoso. O True Crime pode nos ajudar a processar nossos medos e pulsões destrutivas… ou pode simplesmente alimentar uma cultura de voyeurismo mórbido.

A diferença está em como consumimos. Com consciência crítica? Com empatia pelas vítimas? Ou apenas como mais um produto descartável na era do streaming infinito?

O Paradoxo: Vida, Morte e Netflix

Voltando a Freud: ele disse que Eros e Thanatos não existem separadamente. Elas coexistem, se entrelaçam, dançam uma dança macabra dentro de cada um de nós.

True Crime é a manifestação cultural perfeita desse paradoxo. É entretenimento (Eros) sobre morte (Thanatos). É prazer (Eros) derivado de horror (Thanatos). É conexão humana — discutimos os casos com amigos, debatemos teorias online — (Eros) através da desconexão absoluta que é o assassinato (Thanatos).

Nos EUA, o número de ouvintes de True Crime triplicou entre 2019 e 2024, saltando de 6,9 milhões para 19,1 milhões de ouvintes semanais. Isso não é acidente. É sintoma.

Vivemos numa época de ansiedade generalizada, onde a violência está em todo lugar — no noticiário, nas redes sociais, nas estatísticas. True Crime nos dá a ilusão de controle sobre o incontrolável. Se eu entender por que alguém mata, talvez o mundo faça um pouco mais de sentido. Talvez eu consiga me proteger. Talvez eu consiga processar meu próprio medo da morte.

É uma ilusão, claro. Mas às vezes, ilusões são tudo que temos.

Então, Por Que Você Assiste True Crime?

Não estou aqui pra julgar. Eu também assisto. Eu também me pego caindo em rabbit holes do YouTube sobre casos não resolvidos às 2 da manhã.

Mas talvez valha a pena parar por um segundo e se perguntar: o que estou buscando aqui? É genuína curiosidade? É medo de me tornar uma vítima? É fascínio pela transgressão? É o gozo mórbido de testemunhar o pior da humanidade?

Provavelmente é tudo isso junto. E tudo bem.

A pulsão de morte não vai desaparecer. O gozo não vai deixar de existir. Somos seres complexos, contraditórios, assombrados por forças que mal compreendemos. True Crime é apenas mais uma forma de tentarmos lidar com isso.

A questão é: estamos lidando de forma crítica, ética, consciente? Ou estamos apenas alimentando um ciclo de consumo compulsivo que trata tragédias humanas como produtos descartáveis?

A resposta, como sempre na psicanálise, está dentro de você.

E provavelmente não é uma resposta confortável.


E você? Por que consome True Crime? É fascínio genuíno, técnica de sobrevivência ou simplesmente porque não consegue parar? Me conta nos comentários. Ou não. Sei lá, vai que você descobre algo sobre si mesmo que preferia não saber.

P.S.: Se depois de ler isso você ficou com vontade de assistir a mais um documentário sobre serial killers… bem, isso meio que prova meu ponto.

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Sou um curioso incurável. Caminho entre a filosofia, a mística, a música e a vida comum, tentando entender o que existe por trás das palavras, dos símbolos e das canções. No Boteco do Seixas, escrevo para quem desconfia das verdades prontas, gosta de boas perguntas e acredita que pensar também pode ser um ato de liberdade. Aqui não ensino caminhos, compartilho inquietações.

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O Autor - Everton Alves

Sou um curioso incurável. Caminho entre a filosofia, a mística, a música e a vida comum, tentando entender o que existe por trás das palavras, dos símbolos e das canções. No Boteco do Seixas, escrevo para quem desconfia das verdades prontas, gosta de boas perguntas e acredita que pensar também pode ser um ato de liberdade. Aqui não ensino caminhos, compartilho inquietações.

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