Freud e Jung: A História de Uma Amizade Que Virou Guerra

Senta que essa história tem tudo: genialidade, ego inflado, ciúmes, sexo (talvez), traição intelectual, desmaios em público e uma ruptura que dividiu a psicologia em dois campos que ainda não se falaram direito até hoje.

Estamos falando de Sigmund Freud e Carl Gustav Jung, dois dos maiores gênios da mente humana, que foram de brothers inseparáveis a inimigos irreconciliáveis em menos de uma década. E no meio dessa treta toda? Uma jovem psicanalista russa chamada Sabina Spielrein que foi paciente de um, amante (talvez) do outro, e cujas ideias foram meio que “apropriadas” pelos dois.

Bora lá?

Os Protagonistas: Quem São Esses Caras?

Sigmund Freud: O Pai Possessivo da Psicanálise

Sigmund Freud nasceu em 1856 em Freiberg, Morávia (atual República Tcheca), numa família judaica. Se formou em medicina, se interessou por histeria, começou a usar hipnose, depois abandonou a hipnose e criou a psicanálise — um método revolucionário de investigar o inconsciente através da fala.

Em 1900, publicou A Interpretação dos Sonhos, considerada a obra inaugural da psicanálise. Mas o livro flopou bonito: vendeu apenas 350 exemplares nos primeiros cinco anos. Uma miséria. Qualquer influencer de autoajuda hoje vende mais que isso num fim de semana.

Freud ficou puto. Mas não desistiu.

Sigmund Freud

As principais ideias freudianas? Inconsciente, pulsões sexuais e agressivas, complexo de Édipo, mecanismos de defesa, id-ego-superego, interpretação de sonhos como via de acesso ao inconsciente reprimido. Tudo girava em torno de uma coisa: sexualidade. Pra Freud, basicamente tudo que você faz, sente e pensa tem raiz em impulsos sexuais reprimidos desde a infância.

E ele não abria mão dessa teoria. Nunca.

Carl Gustav Jung: O Filho Rebelde da Psiquiatria

Carl Gustav Jung nasceu em 1875 em Kesswil, Suíça, numa família de pastores protestantes. Diferente de Freud (judeu, ateu, materialista), Jung cresceu imerso em discussões teológicas. Seu pai, sete tios e o avô paterno eram pastores.

Jung se formou em medicina, foi trabalhar no Hospital Psiquiátrico Burghölzli sob orientação de Eugen Bleuler (o cara que cunhou o termo “esquizofrenia”). Lá, Jung desenvolveu pesquisas sobre dementia praecox (esquizofrenia) e criou o famoso teste de associação de palavras, que levou à teoria dos complexos.

Foi através desses estudos que Jung topou com Freud. Leu A Interpretação dos Sonhos e pensou: “Caralho, esse cara tá no caminho certo.”

Só que Jung tinha umas diferenças importantes:

  • Era 20 anos mais novo que Freud
  • Era suíço, protestante, não-judeu (isso vai importar muito)
  • Tinha interesse por espiritualidade, mitologia, alquimia, ocultismo
  • Achava que sexualidade era importante, mas não era tudo

E essas diferenças, no começo, pareciam complementares. Depois… bem, depois viraram o estopim da guerra.

O Encontro: 13 Horas Ininterruptas de Conversa

Em 1906, Jung enviou seu trabalho Estudos Diagnósticos de Associação pra Freud. Freud curtiu. Começaram a trocar cartas. Em 1907, Freud convidou Jung pra uma visita em Viena.

O encontro aconteceu em 27 de fevereiro de 1907. E olha só: a conversa durou 13 horas ininterruptas.

Treze. Horas. Sem parar.

Freud e Jung trocaram 359 cartas entre 1906 e 1913. Discutiam sonhos, análises, casos clínicos, confidências. Analisando as cartas, dá pra ver que criaram uma relação paternal. Freud via Jung como o filho ideal, o herdeiro, o sucessor.

Tanto que Freud escreveu em 1909: “… na noite em que eu o adotei como filho mais velho (…), como meu sucessor e príncipe coroado…”

Príncipe. Coroado. Imagina o ego de Jung inflando.

Mas tinha um motivo estratégico aqui. Freud tinha medo de que a psicanálise fosse vista como uma “ciência judaica”. Praticamente todos os psicanalistas eram judeus, e o antissemitismo corria solto na Europa. Jung era suíço, protestante, respeitado academicamente. O encontro com Jung retirou a psicanálise do isolamento judaico, levando-a pro campo social da Suíça protestante.

Foi um alívio gigante pra Freud.

Em 1910, no segundo Congresso Internacional de Psicanálise em Nuremberg, Jung foi nomeado presidente permanente da recém-fundada Associação Psicanalítica Internacional (API). Com 31 anos, Jung estava no topo do mundo psicanalítico.

Freud e Jung juntos na Sociedade Psicológica das Quartas-feiras

Freud, com 50 e tantos, finalmente tinha um sucessor digno.

Ou não.

As Rachaduras: Quando o Príncipe Começa a Questionar o Rei

O afastamento começou em 1909, quando Freud e Jung viajaram juntos pros EUA para as comemorações do 20º aniversário da Universidade Clark. Durante a viagem de navio, eles analisavam os sonhos um do outro.

Até que Freud se recusou a revelar detalhes de um sonho, alegando que isso poderia “comprometer sua autoridade”.

Jung ficou puto. Pensa bem: o cara que criou a psicanálise, que diz que você precisa ser honesto sobre o inconsciente, se recusa a analisar o próprio sonho porque tem medo de perder status?

A rachadura estava aberta.

Em 1911, Jung publicou a primeira parte de Transformações e Símbolos da Libido (depois rebatizado como Símbolos da Transformação). Nesse trabalho, Jung começou a expandir o conceito de libido pra além da sexualidade.

Pra Jung, libido era energia psíquica em geral, não apenas sexual. Era uma força criativa, espiritual, simbólica. Freud discordava completamente.

Em 1912, a publicação completa de Símbolos da Transformação foi a ponta do iceberg. Jung estava publicamente divergindo de Freud sobre o ponto mais sagrado da teoria: a centralidade da sexualidade.

Em 1913, Jung apresentou publicamente, no IV Congresso Internacional de Psicanálise em Munique, sua nova abordagem: Psicologia Analítica. Ele explicitou que sua forma de entender a psique e a prática terapêutica eram diferentes da psicanálise freudiana.

Esse congresso marcou o fim definitivo das relações entre Freud e Jung.

Em 1914, Jung renunciou à presidência da API.

A separação estava consumada.

A Ruptura: Divergências Teóricas (E Talvez Pessoais)

Freud e Jung retratados no cinema no filme: Um Método Perigoso

As Diferenças Teóricas

A discordância quanto à natureza sexual da libido foi o ponto central da ruptura. Mas não era só isso.

1. Inconsciente

2. Sonhos

3. Sexualidade

4. Religião e Espiritualidade

5. Objetivo da Terapia

A Teoria Oficial vs. As Fofocas Históricas

A versão oficial do barraco é que Jung discordava da importância que Freud dava à sexualidade.

Maaaaas… segundo Elisabeth Roudinesco (a Léo Dias da psicanálise), essas briguinhas teóricas só serviram pra esconder o verdadeiro motivo.

Diz a linguaruda que Jung rompeu com Freud depois de ter ficado possesso quando o amigo foi até a Suíça visitar o colega Bleuler e não lhe fez sequer uma visitinha!

Rolou um quiprocó infernal, com alfinetadas e intrigas pra todos os cantos. Um vexame! E toda a situação terminou com o rompimento dos dois e um desmaio de Freud em pleno congresso da IPA!

Sim, Freud desmaiou. Em público. No meio de um congresso. Por causa de Jung.

Imagina o climão.

A Mulher no Meio: Sabina Spielrein

Mas tem outro personagem nessa história que foi soterrado, apagado, esquecido por décadas: Sabina Spielrein.

Sabina nasceu em 1885 na Rússia, numa família judaica. Em 1904, aos 18 anos, foi internada no Hospital Burghölzli com diagnóstico de histeria. Seu médico? Carl Gustav Jung.

Jung tratou Sabina usando o método de associação de palavras. Ela melhorou. Se matriculou na faculdade de medicina. E… bem, aí a coisa complica.

A Relação Jung-Spielrein: Amor? Terapia? Abuso?

Entre 1906 e 1908, Jung e Spielrein começaram a se encontrar fora do contexto médico. Sabina chamava isso de “poesia”. Trocavam cartas intensas. Jung assinava “com afeto e devoção”.

Em 1906, Jung mencionou Spielrein numa carta a Freud, mas manteve-a anônima: “Estou tratando uma histérica com seu método. Caso difícil, uma estudante russa.” Mas nessa altura, ela não era mais paciente dele.

Em março de 1909, Jung entrou em pânico e escreveu pra Freud dizendo que “uma paciente mulher que eu tirei de uma neurose pegajosa com esforço incansável armou um escândalo vil apenas porque eu me neguei o prazer de dar-lhe um filho.”

Espera. Um filho?!

Jung insinuou que Sabina estava planejando seduzi-lo sistematicamente. Que ela estava espalhando rumores de que ele ia se divorciar da esposa pra casar com ela.

Mas quando Sabina escreveu diretamente pra Freud em junho de 1909, a versão foi outra: “Quatro anos e meio atrás, Dr. Jung foi meu médico, depois se tornou meu amigo e finalmente meu ‘poeta’, ou seja, meu amado.”

Jung admitiu depois que tinha agido de forma errada, pediu desculpas a Freud, chamou suas acusações de “delírio” e “estupidez”. Freud também pediu desculpas a Sabina por ter acreditado inicialmente na versão de Jung.

Mas o estrago estava feito.

O Legado Esquecido de Spielrein

Sabina não era só “a paciente” ou “a amante”. Ela foi uma das primeiras psicanalistas mulheres, publicou sua tese de doutorado em psicanálise em 1911 (Jung mal mencionou), e em 1912 publicou “A Destruição como Causa do Devir” — um trabalho revolucionário sobre a relação entre sexualidade, agressividade e morte.

Freud usou as ideias de Spielrein em 1920 quando desenvolveu a teoria da pulsão de morte. Ele a citou… numa nota de rodapé.

Jung também se “inspirou” nas ideias dela, mas não deu crédito adequado.

Como disse a pesquisadora Ana Cromberg, o “soterramento histórico da obra” de Spielrein resulta de múltiplos fatores: ela era mulher, judia, russa, e estava entre as desavenças de Jung e Freud.

Ou seja: apagaram ela.

Depois da Separação: Dois Caminhos, Dois Legados

Freud e Jung juntos na Sociedade Psicológica das Quartas-feiras

O Que Aconteceu com Freud

Após a separação, Jung e todos os amigos de Freud se afastaram. A ruptura teve efeito trágico no homem Freud.

Freud continuou desenvolvendo a psicanálise. Publicou trabalhos fundamentais como Além do Princípio do Prazer (1920), O Ego e o Id (1923), O Mal-Estar na Civilização (1930).

A psicanálise se espalhou. Influenciou literatura, crítica cultural, cinema, política, filosofia, especialmente através de Jacques Lacan, Jacques Derrida e Gilles Deleuze.

Em 1938, os nazistas invadiram a Áustria. Os livros de Freud foram proibidos e queimados publicamente. Ele foi obrigado a se exilar em Londres, onde morreu em 1939.

O Que Aconteceu com Jung

Após a separação, Jung sentiu o chão desmoronar. “Depois da ruptura com ele, todos meus amigos e conhecidos se afastaram de mim. Meu livro não foi considerado uma obra séria.”

Jung passou por algo que ele mesmo chamou de “confronto com o inconsciente” — uma série de sonhos, visões e experiências psicóticas que duraram anos. Ele disse que se não tivesse integrado todo aquele material, teria sucumbido à psicose.

Mas foi desse mergulho que nasceram suas ideias mais importantes: inconsciente coletivo, arquétipos (Persona, Sombra, Anima, Animus), individuação, sincronicidade, tipos psicológicos (introversão/extroversão).

Em 1914, Jung organizou junto com Alphonse Maeder as bases da Escola de Zurique.

A Psicologia Analítica Junguiana influenciou: arteterapia, psicologia transpessoal, ecopsicologia, educação, estudos de religião. Até o MBTI (teste de personalidade Myers-Briggs) foi desenvolvido a partir das teorias de Jung.

Jung tentou duas vezes se reencontrar com Freud em 1938. Freud recusou. Nunca mais se falaram.

Jung morreu em 1961.

A Tentativa de Síntese: Carlos Byington

Segundo Carlos Byington, fundador da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica (SBPA), a separação entre Freud e Jung feriu tão profundamente a psicologia moderna que só agora, mais de 100 anos depois, ela começa a se recuperar.

Byington propôs a Psicologia Simbólica Junguiana, que tenta conjugar Psicanálise e Psicologia Analítica:

  • Formação do Ego na infância e sua patologia (Freud)
  • Coordenado pelos arquétipos (Jung)
  • Desenvolvimento da personalidade na segunda metade da vida (Jung)
  • Ambos inseridos no processo de individuação

Donald Winnicott também tentou essa ponte. Ele atribuiu a separação entre Freud e Jung à falta de comunicação e compreensão mútua, dizendo que cada um era possuído por um “daimon” diferente.

Historicamente, muitos autores consideram que a separação impediu uma síntese entre razão e simbolismo, ciência e espiritualidade. Mas também produziu um legado fecundo: duas tradições profundas, complementares.

Hoje há um movimento crescente de diálogo entre escolas freudianas e junguianas, especialmente entre clínicos interessados em abordagens holísticas.

As Teorias Polêmicas Sobre a Separação

Bom, agora vem a parte suculenta. As teorias alternativas sobre por que esses dois realmente romperam.

Teoria 1: Sabina Spielrein Foi o Estopim

John Kerr, psicólogo clínico e historiador, autor de “A Most Dangerous Method” (1993), argumenta que Freud tentou usar o que sabia sobre a vida pessoal de Jung para exercer controle ideológico sobre o movimento psicanalítico.

Kerr defende que Jung estava ciente do suposto caso de Freud com sua cunhada Minna Bernays (affair negado por muitos biógrafos, mas defendido como plausível por Kerr).

Segundo Kerr, foi quando Jung ameaçou retaliar revelando o que sabia sobre a vida pessoal de Freud que a colaboração entre eles se dissolveu.

Ou seja: não foi sobre teoria. Foi chantagem mútua.

Teoria 2: Ego e Narcisismo Ferido

Aldo Carotenuto, junguiano italiano, autor de “A Secret Symmetry” (1982), pintou Spielrein como sedutora e esquizofrênica, culpando-a pelo suposto affair com Jung.

Mas Zvi Lothane, psiquiatra e historiador, rebateu essa versão, defendendo Sabina e mostrando que a narrativa de “mulher sedutora” era uma forma de Carotenuto exonerar Jung.

Lothane argumenta que o verdadeiro problema foi o narcisismo ferido de ambos os homens. Freud não aceitava ser questionado. Jung não aceitava ser tratado como “filho” eternamente.

Teoria 3: Antissemitismo Velado

Alguns historiadores sugerem que, embora Jung nunca tenha sido abertamente antissemita antes da separação, durante os anos 1930 ele se tornou uma das faces mais visíveis da psiquiatria alemã na época nazista, enquanto os livros de Freud eram queimados.

Isso não significa que Jung era nazista (ele não era), mas levanta questões sobre até que ponto diferenças culturais e religiosas pesaram na ruptura.

Teoria 4: Simplesmente Inconciliável

Donald Winnicott oferece a explicação mais simples e talvez mais honesta: incomunicabilidade pessoal e possessão por daimons diferentes.

Freud era materialista, racionalista, reducionista. Jung era espiritualista, místico, expansionista. Cada um era fiel ao seu próprio daimon interno, e esses daimons eram incompatíveis.

Simples assim.

Dois Gigantes, Uma Psicologia Dividida

No final das contas, o que sobrou?

Duas tradições profundas e incompatíveis que ainda não se falaram de verdade. Psicanálise e Psicologia Analítica seguem caminhos separados há mais de 100 anos.

Mas talvez seja isso mesmo. Talvez não dê pra juntar Freud e Jung. São visões de mundo diferentes, epistemologias diferentes, formas de enxergar o ser humano que não se misturam.

Como disse Byington, a ferida causada pela separação ainda dói. Mas também produziu frutos. A tensão entre razão e símbolo, ciência e espiritualidade, materialismo e transcendência — essa tensão é fecunda.

E Sabina Spielrein? Bom, ela morreu em 1942, fuzilada por nazistas junto com suas duas filhas numa sinagoga em Rostov. Suas contribuições foram esquecidas por décadas, até que na década de 1970 suas cartas e diários foram descobertos.

Hoje, finalmente, ela está recebendo o reconhecimento que merecia desde 1912.

Freud e Jung? Cada um fundou uma escola. Cada um mudou o mundo. E cada um, à sua maneira, estava certo.

E errado.

Como todo ser humano.


Fontes e Links:

E você? Time Freud ou time Jung? Ou acha que os dois estavam certos (e errados) ao mesmo tempo? Me conta nos comentários!

Compartilhar:

Sou um curioso incurável. Caminho entre a filosofia, a mística, a música e a vida comum, tentando entender o que existe por trás das palavras, dos símbolos e das canções. No Boteco do Seixas, escrevo para quem desconfia das verdades prontas, gosta de boas perguntas e acredita que pensar também pode ser um ato de liberdade. Aqui não ensino caminhos, compartilho inquietações.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

O Autor - Everton Alves

Sou um curioso incurável. Caminho entre a filosofia, a mística, a música e a vida comum, tentando entender o que existe por trás das palavras, dos símbolos e das canções. No Boteco do Seixas, escrevo para quem desconfia das verdades prontas, gosta de boas perguntas e acredita que pensar também pode ser um ato de liberdade. Aqui não ensino caminhos, compartilho inquietações.

Nos Siga no Instagram

Recent Posts

  • All Post
  • Anime e Mangás
  • Crônicas
  • Curiosidades Nerd
  • Esoterismo
  • Filmes e Cinema
  • Mundo Tech
  • Podcast
  • Psi
  • Series

Faça parte do nosso Boteco!

Increva-se na nossa Newsletter.

Inscrição realizada com sucesso! Ops! parece que algo deu errado, tente novamente!
Edit Template

Sobre

Onde a contracultura senta, pensa e pede mais uma.
Pensamento livre, música alta e perguntas melhores que respostas.

Post Recentes

  • All Post
  • Anime e Mangás
  • Crônicas
  • Curiosidades Nerd
  • Esoterismo
  • Filmes e Cinema
  • Mundo Tech
  • Podcast
  • Psi
  • Series

© 2025 Created with Royal Elementor Addons